3 blogueiras + 1 desafio = aprimorar a cinefilia.
DVD, sofá e pipoca,
formando cinéfilas melhores!

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Touro Ferdinando

A estória de O Touro Ferdinando (Ferdinand, 2018) é baseada no romance "Ferdinando, o Touro" ("The story of Ferdinand", no original inglês) do escritor americano Munro Leaf.  A clara mensagem pacifista do livro transformou-se numa divertidíssima adaptação para o cinema pelas mãos de Carlos Saldanha (diretor brasileiro de animações como Rio e A Era do Gelo 2). A animação de quase 2h não cansa ao expectador e ainda diverte e emociona a crianças e adultos. Atenção para a dublagem brasileira, que arrasou no tom para cada personagem (mesmo com a presença de não-dubladores, como a atriz mirim e ex-apresentadora Maísa Silva). 


Ferdinando (John Cena/Duda Ribeiro) nasceu em uma fazenda especializada em criar touros para touradas. Na Casa del Toro, a única chance de sair dali era ser o touro mais forte e destemido - assim ele teria uma chance de enfrentar o toureiro que o escolhesse e, se o vencesse na arena, seria livre. Então pais ensinavam a seus filhos a serem valentes, mas o pequeno Ferdinando não queria saber de brigar. Ele gostava mesmo de flores. Seus amiguinhos zombavam dele por isso, mas nem assim ele deixou de ser gentil: afinal, seu pai também era forte e destemido, e ainda era bondoso e gentil. Foi depois que seu pai fora escolhido para lutar contra um toureiro que Ferdinando decidiu que não queria mais aquela vida.

Nina (Maísa) adota Ferdinando ainda bezerrinho: ganhou um amigão de quase uma tonelada!
Ele consegue fugir da Casa del Toro e encontra abrigo na casa de Nina (Lily Day/Maísa). Lá ela o trata com carinho e gentileza, e Ferdinando cresce (e muito!) em um pequeno paraíso na companhia do cachorro Paco (Jerrod Charmichael) e do pai de Nina, Juan (o cantor colombiano Juanes). Sua paixão por flores o faz acompanhar a família no festival anual de flores da cidade vizinha, mas naquele ano ele não poderia ir: havia crescido demais para poder andar entre as ruas estreitas da cidade - ainda mais difícies de andar por conta dos enfeites e transeuntes. Mas Ferdinando não quis ficar para trás e acabou se metendo na maior confusão.
Paco (Charmichael) ficou um pouco irritado com o penteado "boi lambeu"
Sendo levado para longe de Nina e de volta para a Casa del Toro, ele reencontra seus amigos Valente (Bobby Cannavale/Leonardo Rabelo), Guapo (Peyton Manning) e Magrão (Anthony Anderson/Paulo Vignolo) ainda lá, esperando para serem escolhidos. Até parece que nada mudou, mas as coisas mudaram muito: o clima fica mais pesado, como se a competição estivesse mais acirrada - ressaltada pela presença dos esnobes cavalos Hans (Flula Borg/Otaviano Costa), Greta (Sally Phillips) e Klaus (Boris Kodjoe). Novos touros estão no páreo para serem escolhidos por El Primero (Miguel Ángel Silvestre, o Lito de Sense8), como o touro irlandês Angus (David Tennant/Mário Jorge) e o esquisito Máquina - e eles dispõem até de uma cabra treinadora, a tresloucada Lupe (Kate McKinnon/Thalita Carauta). 

Os cavalos comandados por Hans (Costa) enfrentam os touros em uma inusitada e divertida batalha de talentos
Mas Ferdinando continua sendo ele mesmo: o que ele quer é sair dali sem lutar, e o mais rápido possível voltar para sua amada fazenda de flores e sua família com Nina, Juan e Paco. Para montar um plano de fuga, ele vai contar com a ajuda inesperada de Una (Gina Rodrigues/Bruna Laynes), Dos (Daveed Diggs/Phillipe Maia) e Cuatro (Gabriel Iglesias/Wirley Contaifer), um trio de ouriços tão habilidosos quanto fofos - e doidinhos. Enquanto isso, seus amigos ainda lutam para serem escolhidos e o chamam de covarde por só pensar em fugir. O que Ferdinando fará? Será que ele finalmente vai ouvir seus amigos e começar a brigar por sua vida? Ou vai aceitar que é um "covarde" e fugir de qualquer jeito?

Lupe (Carauta) se esforça para fazer de Ferdinando um touro matador, mas olha ele enfrentando a ira desse coelhinho!
Envolvente desde os primeiros minutos, a sensível estória leva a gente a pensar sobre como encaramos nossa vida. É muito fácil se identificar com os personagens e seus dramas, e o mais surpreendente é que há tanto bom humor que o peso do contexto (um touro que tem como destino uma tourada não é nada mais do que uma alegoria da humanidade rumando para o final inevitável da morte) permanece como uma leve ameaça constante porém sem dominar os sentimentos do espectador. A gente se diverte com as trapalhadas de Ferdinando, ri com as piadas sutis, gargalha com as crises histéricas de Lupe e as artimanhas dos ouriços e nem se dá conta do tempo passando. 

O trio de ouriços é uma das coisas mais fofas do filme (que já é uma fofura só!)
Com uma mensagem importante de respeito a si próprio, de consciência de que existe um mundo muito maior do que aquela bolha onde a gente vive (e que as regras nem sempre são justas), de que um ato de bondade pode mudar a vida de outras pessoas, O Touro Ferdinando me surpreendeu. Eu esperava ver uma animação bem feita e uma estória até triste e melancólica, mas do início ao fim o tom é positivo. Pais e filhos vão adorar os personagens e aprender preciosas lições de otimismo consciente, de bondade e amizade, enquanto se divertem a valer. Uma ótima pedida para as férias, vale o ingresso e a pipoca da família inteira.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Jumanji – Bem-vindo à selva

Uma das primeiras estreias de 2018, Jumanji – Bem-vindo à selva! (Jumanji: Welcome to the jungle, 2017) é um reboot divertido do clássico infantil de 1995. Sem Robbie Williams para encabeçar o elenco, a produção aposta no carisma de Dwayne "The Rock" Johnson e Jack Black para atualizar a estória do jogo de tabuleiro que é mais do que uma brincadeira de criança. Com ação, aventura e bom humor bem equilibrados, o longa cumpre o que promete: diverte e entretém, sem compromisso.

Estamos nos 1990 e um pai desavisado acaba encontrando a caixa do jogo meio enterrada na areia da praia. Ele decide levar o brinquedo para o filho adolescente, que pouco dá importância para o presente – afinal, a era dos videogames havia chegado. De noite, o jogo magicamente se transforma e o jovem se vê tentado a jogar. Algo sinistro acontece e temos um salto no tempo. 

Spencer (Wolf), Fridge (Blain), Bethanny (Iseman) e Martha (Turner): prestes a entrar em Jumanji
No tempo presente, um jovem nerd finaliza um trabalho para outro colega de turma, um atleta promissor com problemas nas notas. Uma jovem tímida acaba desrespeitando uma professora durante a aula de Educação Física e outra não consegue largar o celular nem mesmo durante a prova em sala de aula. Resultado: os quatro acabam na detenção. E é assim que Spencer (Alex Wolf), Fridge (Ser'Darius Blain), Martha (Morgan Turner) e Bethanny (Madison Iseman) acabam se juntando – e encontrando o videogame Jumanji.

Burlando as regras do castigo, eles iniciam uma inocente partida escolhendo a esmo um perfil para jogar Jumanji – que eles não faziam ideia do que se tratava. Após todos terem um personagem, eles acabam sendo sugados para dentro da máquina e “logam” como os avatares de seus personagens escolhidos. Assim, Spencer torna-se o explorador Dr. Bravestone (The Rock), Fridge é Moose Finbar (Kevin Hart), um biólogo que mais parece uma enciclopédia, Martha ficou com a sexy lutadora Ruby Roundhouse (Karen Gillian, de Doctor Who e Guardiões das Galáxias) e Bethanny terminou como o Shelly Oberon (Jack Black, perfeito), um geógrafo experiente. 

Finbar (Hart), Ruby (Gillian), Bethanny (Black) e Bravestone (The Rock): os avatares
O grupo aos poucos descobre como funciona o jogo: suas próprias habilidades, as regras do jogo, quais missões tem que cumprir, quais perigos terão que enfrentar e, principalmente, que se eles não conseguirem terminar a missão, eles ficarão perdidos na selva para sempre. Então eles precisam aprender a trabalhar em grupo – para isso, terão que superar seus medos e resolver problemas do mundo real nesse novo mundo digital retrô e selvagem. 

Jumanji – Bem-vindo à selva consegue, de forma divertida, fazer uma homenagem ao brincar com a nostalgia dos anos 1990, época em que o primeiro longa foi lançado. A tecnologia antiga e a forma como o jogo se desenrola são bastante bem resolvidos e convincentes para um jogo de tabuleiro adaptado para um videogame antigo. A produção impecável traz o clima certo de filme de aventura e o elenco, tanto juvenil quanto adulto, dão conta do recado. Mas o destaque fica mesmo para The Rock e Jack Black: o primeiro sabe muito bem como tirar sarro de si mesmo, e Black não exagera na bizarrice ao interpretar uma adolescente patricinha com os hormônios à flor da pele no corpo de um gordinho de meia idade. De longe, os dois são os destaques do filme – que provavelmente seria apenas mais um se não fosse a presença dos dois. 

The Rock é um dos destaques do filme como Dr. Bravestone, o alter-ego de Spencer
Gillian também está divertida como a desajeitada adolescente no corpo de uma “ninja”, mas Hart está um pouco over – como é o estilo dele. Fazer piadas sobre sua baixa estatura ou falar gritando o tempo todo é como ele ganha a vida, e só por isso eu gostaria de vê-lo dar uma aliviada (exatamente como The Rock e Jack Black fizeram neste longa). A pequena participação de Nick Jonas é importante para a trama, mas ele também não fez muita diferença no resultado final. 

Kevin Hart faz piada com seu tamanho. O tempo todo. E nem é tão engraçado assim.
No mais, o filme é divertido e vale a pipoca. Tem lá seus exageros digitais e piadas nem tão engraçadas para nós, brasileiros, mas... Dá para passar. Não deve desagradar aos fãs mais ferrenhos do longa original (se bem que está cada vez mais difícil fazê-los felizes, não é?...) e pode ser uma grata surpresa para quem não espera muita coisa dele. Uma boa pedida para o finzinho das férias escolares: pais e filhos devem aproveitar as boas risadas antes de voltar para a rotina pós- festividades. 

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O Rei do Show


O Rei do Show (The Greatest Showman, 2017) narra a trajetória de P. T. Barnum (Hugh Jackman) de um simples filho de alfaiate a um dos maiores nomes do entretenimento nos Estados Unidos do século 19. Motivado pelo fato de sua paixão de infância e futura esposa Charity (Michelle Williams) vir de uma família rica, ele quis se tornar um grande homem na sociedade para lhe dar todo o conforto que merecia - e também para se provar ao sogro, que não aprovava a relação por ele ser pobre.

A família Barnum: depois das dificuldades, a fartura
Barnum se aproveita dos limões da vida para fazer suas limonadas: pulando de emprego em emprego, consegue sustentar a esposa e as duas filhas, Caroline (Austyn Johnson) e Helen (Cameron Seely). Quando é demitido, porém, de seu último emprego, surge uma oportunidade. Valendo-se de uma manobra (em bom português, fraude), consegue um bom empréstimo no banco para financiar seu sonho: construir um museu de raridades (leia-se "esquisitices"). Os negócios, porém, vão mal das pernas pois ninguém parece tão entusiasmado quanto ele e suas meninas com a ideia. Da sugestão de uma delas nasceu a fagulha: ele precisava de coisas vivas naquele lugar.

Lettie (Settle) encabeça o grupo dos artistas recrutados por Barnum
A família se pôs à caça de talentos (ou nem tanto) que fossem únicos, pessoas geralmente excluídas da sociedade por suas características físicas para torná-las estrelas de seu inusitado show. A princípio relutantes, elas aceitam e acabam encontrando forças para encarar a sociedade de frente - muitos pela primeira vez a vida. O show torna-se um sucesso de público, mas enfrenta resistência da crítica e dos preconceituosos. Barnum, porém, não esmorece: continua tentando ampliar seu negócio, e arruma uma inusitada parceria com Phillip Carlyle (Zac Efron) - um bom produtor de teatro, que tinha clientes ricos porém insatisfeitos com seus espetáculos. Agora, parece que o céu é o limite para o império de Barnum - mas não é bem assim que as coisas acontecem.

Carlyle (Efron) e Barnum (Jackman): melhor sequência do musical
Apesar do visual caprichado - e aqui incluo uma fotografia belíssima, figurinos e caracterizações muito bem executados, além de uma rica direção de arte - o filme não me cativou. A empolgação alheia (reação da maioria que assistiu à mesma exibição que eu) foi diretamente proporcional à minha decepção. Apesar do carisma de Jackson, Williams e Efron, do clima de fantasia que permeia todo o longa, tudo é meio morno, afobado e tediosamente previsível. Para um filme com cara de espetáculo da Broadway, ficar parecendo filme pipoca da Sessão da Tarde foi um resultado até bom. Me incomodou bastante também a sensação de que o diretor Michael Gracey queria provar para nós, espectadores, que ele podia fazer um novo Moulin Rouge - só que ele passou longe da genialidade de Baz Luhzman aqui. Já estamos acostumados com as coreografias modernas, mas em alguns números a dança parecia apressada demais para o clima da cena.

Falta delicadeza para cantar e dançar com poesia o amor desses dois
Há muitos excessos e muitas faltas. Excesso de efeitos especiais (os animais do circo ficaram bem falsos), de condescendência pelo personagem principal (ele ganhou a vida ludibriando os outros), de músicas repetitivas (fora dois números realmente empolgantes, todas as outras músicas pareciam a mesma), excesso de músicas dubladas bem coreografadas (já vi lipsyncs melhores em programas de TV...). Mas o pior foi o que faltou: não há espaço para dar dimensão aos outros personagens. Os artistas - aqueles que deveriam ser exaltados no palco - foram esquecidos até na tela (pareciam apenas o corpo de baile ao invés dos protagonistas do show de Barnum), o romance dos astros teen Zendaya e Zac Efron não convence (e ainda fica só de raspão a crítica ao preconceito ao amor inter-racial)... Faltou alma ao filme, mesmo que seus atores tenham se empenhado para fazer um grande espetáculo.

Zendaya convence no drama, mas romance da personagem não empolga
Ok, admito que gostei e muito de ver Zendaya cantando e em cena (e o máximo que eu sabia dela era que era protagonista de um seriado infantil da Disney) e que ela provou que tem muito potencial dramático, mas só o carisma dos atores definitivamente não funcionam para salvar um roteiro fraco. No fim, a sensação é de que eu também fui ludibriada por Barnum e assisti a um de seus shows fraudulentos. No fim das contas, dá até para assistir - e eu duvido que você consiga sair sem cantarolar as músicas - mas O Rei do Show está longe de ser um dos melhores do seu gênero. 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Extraordinário

Extraordinário (Wonder, 2017) é daqueles filmes família que pegam a gente desprevenido. Seria de se esperar que num longa que narra a adaptação de um menino de 7 anos que nasceu com uma deformidade ao mundo houvesse muitas lágrimas (e elas vêm, não se preocupem), porém o tom do filme é totalmente positivo e otimista. Baseado no best-seller de R. J. Palacio, ganhador do prêmio Mark Twain Readers Award (voltado para o público infanto-juvenil), a história de Auggie é uma lição de amor ao próximo como pouco se vê.


Auggie (Jacob Tremblay, de O quarto de Jack) é um menino como outro qualquer: adora brincar e sonha ser astronauta. Ele também é muito sortudo, pois vive com a família em uma casa bonita e todos ao seu redor o amam incondicionalmente. Acontece que Auggie não é um menino comum: por causa de uma má-formação congênita, desde bebê ele preciso passar por diversas cirurgias que salvaram sua vida - porém não conseguiram trazer ao pequeno uma aparência normal. Dentro de casa ele recebe o apoio dos pais, Nate (Owen Wilson) e Isabel (Julia Roberts), da irmã Via (Izabela Vidovic) e até da cachorrinha Daisy. Mas ele tem péssimas experiências com o mundo fora daquela bolha familiar.

Auggie (Tremblay) indo para a escola pela primeira vez: capacete e apoio da família para se sentir mais confiante
Auggie tem uma imaginação muito fértil e é muito inteligente para sua idade - sua mãe havia se dedicado à sua educação em casa, mas agora ele precisava encarar uma nova etapa: ir para uma escola regular. Apesar de assustado, Auggie recebe o incentivo da família e o apoio do diretor da escola, o Sr. Tushman (Mandy Patinkin) - cuja tradução de nome para Sr. Buzanfa é sensacional - e o professor Browne (Davee Diggs). Alguns alunos foram selecionados para ajudá-lo na adaptação antes das aulas começarem, como o riquinho Julian (Bryce Gheisar), a mini esrela Charlotte (Elle McKinnon) e o bolsista Jack Will (Noah Jupe). 

A jornada de amadurecimento de Auggie é fascinante e emocionante, além de obviamente ser o foco da história. E é aí que o filme surpreende: o universo dele não se resume apenas à sua perspectiva, mas à dos outros jovens que passam na sua vida e como o mundo deles foi afetado pela presença de Auggie. Aliás, nem só dos jovens: a pequena participação de Sônia Braga (quase relâmpago, diga-se) parece reforçar a ideia do quanto todos precisam de atenção - e não só o pequeno. A tênue linha que separa o normal do extraordinário é explorada em diversas nuances e ângulos, o que torna essa estória uma delícia de acompanhar ao invés de um possível sofrimento melodramático nível hard.

Mr. Tushman (Patinkin): a prova de que ninguém é imune à ridicularização
É interessante perceber que somos levados a reparar no que é invisível, como a dedicação da mãe que interrompe todos os planos da vida para ajudar o filho, a filha que não sabe bem onde se encaixar na dinâmica familiar pós-Auggie, os amiguinhos que aprendem a lidar com o diferente a seu jeito. Tudo isso regado a muito bom humor. Não é que você vá gargalhar de sair com a barriga doendo, mas algumas situações são realmente divertidas - algumas tiradas das crianças são impagáveis, e muitas situações corriqueiras também deixam o espírito mais leve e ajudam a equilibrar os momentos mais pesados. Inevitável ficar com o coração apertado ao ouvir Auggie expressar sua angústia por causa do preconceito, ou a sensação de estar sempre em segundo plano na vida dos pais como acontece com Via.

Os dilemas humanos e universais de aceitação e pertencimento são tratados nas entrelinhas - e o maior mérito de tudo é saber que as crianças serão capazes de apreender isso pela lição de vida que é a história de Auggie. Também é um alívio ver que ainda é possível tratar de temas tão delicados como preconceito com tanta naturalidade e leveza, sem nenhum tipo de discurso de ódio. Naturalidade, aliás, parece ser o fio condutor do longa: é normal ser diferente, é normal ficar deslocado de vez em quando, é normal retomar a vida quando temos a oportunidade. Fica quase impossível não se apegar à família Pullman e a forma doce e amorosa como eles enfrentam os desafios juntos. Um reforço e tanto no discurso do perdão e da empatia, tão necessário em tempos extremados como enfrentamos atualmente. Um filme tipicamente natalino e americano, mas sem aquele ar piegas e clichê de neve, milagre de natal e sentimentalismo barato.

Auggie e Nate (Wilson): nem tudo é sobre a condição do garoto
Desde a produção de arte até a escolha do elenco, tudo nesse filme é acertado. A pesada maquiagem que o pequeno Tremblay usa para desfigurar seu rosto é um acerto duplo: por ficar tanto tempo no ar, ela precisa ser no limite do visual agradável aos olhos e deixar que o talentoso ator mirim consiga se expressar - e ela permite ao público ter empatia com Auggie e que Jacob brilhe em sua interpretação. As crianças, aliás, são um achado. Todas, mesmo as que pouco interagem com Auggie, dão conta de interpretar sentimentos muito intensos como empatia e preconceito de forma natural. Há passagens hilárias e bastante nerd, e combinam com a personalidade especial do personagem principal.

Jack Will (Jupe) e Auggie: elenco mirim dá show de interpretação e simpatia
Definitivamente, Extraordinário tem tudo para agradar ao público. É filme para levar a criançada e depois debater com elas, mostrar que é possível vencer o preconceito e fazer a vida de todos muito mais feliz - ou menos difícil. Simplesmente imperdível, é para se divertir e se emocionar: não esqueçam dos lencinhos! 

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Assassinato no Expresso Oriente

Kenneth Branagh quis fazer de seu remake de Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express, 2017) um filme grandioso e, de certa forma, conseguiu. Mas, assim como no livro de Agatha Christie, a gente não pode ignorar a complexidade que é trabalhar tantos personagens ao mesmo tempo. Nesse sentido, as quase 2h de filme são necessárias - porém, mal distribuídas. Ainda assim, o longa tem um visual deslumbrante e um Poirot divertido na medida certa para o filme funcionar.

Poirot (Branagh) precisa de férias e seu amigo Bouc (Tom Bateman) decide arrumar um tempinho para ele descansar: seu trem, o Expresso Oriente, partirá de Istambul até Londres, e ele presenteou o amigo com uma viagem para descansar. O que nenhum dos dois contava era com os imprevistos no meio do caminho. Entre duas paradas, o trem acaba preso nos trilhos por um deslocamento de neve causado por uma tempestade. Após o inconveniente, Poirot e Bouc precisam lidar com uma outra - e mais grave - situação: durante a madrugada, um passageiro foi assassinado dentro de sua cabine.

Hercule Poirot (Branagh) e o Expresso Oriente
Apesar de estar de folga, Poirot acaba cedendo ao pedido do amigo para investigar o caso. Certificando-se de que o vagão onde ocorreu o crime estava isolado na noite do crime, ele começa a interrogar os suspeitos - ou seja, todos os outros passageiros do trem. E é a partir dos interrogatórios que começamos a conhecer os personagens - e onde o filme encontra seus problemas. Ao todo, são 12 suspeitos para um assassinato. Desvendar uma rede de segredos e mentiras nos livros é mais fácil porque, a qualquer momento em que a gente fique perdido, é fácil voltar algumas páginas e sanar a dúvida. Mas como fazer isso num filme onde não dá para voltar e checar a informação perdida? Pois é. Assim, alguns personagens ganharam um certo destaque e outros acabaram "clipados" juntos, e quem não estiver bem atento vai acabar se confundindo ali. Mas, nada de desespero, porque tudo acaba tendo um final muito bem explicado.

Poirot interroga a Srta. Debenham (Daisy): apresentações de alguns personagens ficou comprometida
Fora esse detalhe importante, de resto o filme é bem interessante - ou seja, mesmo se você ficar confuso, não desistirá de assistir até o final e tampouco se decepcionará com ele. Aliás, uma grande qualidade do filme é apresentar o personagem Poirot para as novas gerações, assim como a mente engenhosa de Agatha Christie que criou essa pérola das histórias de detetive. Uma verdadeira constelação foi escalada para dar vidas aos personagens de Christie: Judi Dench, Willem Dafoe,  Michelle Pffeifer, Johnny Depp, Penélope Cruz são apenas alguns dos rostos que você verá aqui e todos apresentam um trabalho correto. De certa forma é meio decepcionante que seja apenas "correto" - mas é o mínimo que se espera de estrelas desse porte.

Josh Gad e Johnny Depp: estrelas no elenco e luxo na produção são a marca desse filme
Os verdadeiros aplausos vão para o roteiro (que introduziu suavemente questões - infelizmente - ainda atuais de racismo e preconceito), a luxuosa produção de arte e figurino (que trouxeram todo o glamour da década de 1930) e para a fotografia engenhosa (que teve que lidar com alguns cenários bem apertados dentro do trem sem que causasse sensação de claustrofobia em momento algum). O visual deslumbrante e o divertido Poirot criado por Branagh, que é bem mais espirituosos do que insuportável, valem o ingresso do cinema. Ao final, a sugestão de uma nova aventura do detetive é mais do que bem-vinda: gostei bastante dessa viagem no Expresso Oriente; agora só falta saber o que Poirot precisará desvendar no Egito... 

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

A vilã

A vilã (Ak-Nyeo, 2017) é um ótimo - e sanguinolento - filme sul-coreano de Byung-gil Jeong. Narrando a estória de um assassina em série que ainda precisa pagar uma dívida com sua organização para finalmente ser livre e fugir do seu passado, o longa é empolgante do início ao fim. As alucinantes sequências de ação são intercaladas com um drama denso como só o cinema asiático é capaz de produzir, embora alguns espectadores mais atentos consigam descobrir o grande segredo antes dele ser revelado.


Já de cara o filme mostra a que veio: em uma empolgante sequência de assassinatos em um clube de mafiosos parece saída diretamente de um videogame. Só o que vemos é a fúria de um assassino habilidoso e os inimigos se aproximando e sendo abatidos em série, da perspectiva do próprio assassino. Só mais para o fim da longa cena é que vemos o rosto de Sook-hee (Ok-bin Kim, excelente). Logo após o evento, a jovem é levada para uma espécie de hospital e lá é submetida a cirurgia plástica que muda seu rosto. O tempo todo ela é monitorada, e logo descobrimos porquê.

Sook-Hee (Ok-bin) em treinamento
Por ser considerada acima da média, Sook-hee é preciosa para a organização de assassinos que a resgatou. Sabendo que não poderiam detê-la, propõem um acordo: ela deveria cumprir algumas missões e dentro de 10 anos ela estaria completamente livre, com idade trocada e o passado apagado para que tivesse direito a uma vida completamente nova. Ela aceita, porém o que ela não sabe é que mesmo livre ainda estaria sendo monitorada. Hyun-soo (Sung Joon) ficou encarregado de vigiar Sook-hee até conseguir sua promoção, mas os sentimentos que ele tem por ela podem atrapalhar os planos de todos - principalmente quando as mentiras contadas à ela começam a cair num efeito dominó devastador.

Hyun-soo (Sung): dividido entre o dever e o coração
A trama baseada em vingança é um tema recorrente, mas a forma luxuosa como a história de Sook-hee foi contada faz toda a diferença. Entremeando flashbacks e lutas sangrentas em ritmo acelerado, o longa não cansa o espectador. Todas as perguntas que surgem são respondidas a seu tempo, e você se pega torcendo pela protagonista mesmo sabendo dos horrores que ela é capaz de fazer. No fundo, a gente torce pelo final feliz de princesa Disney para ela mesmo sabendo que a vida não é assim tão generosa - nem mesmo dentro das telas. Há uma sugestão de que pode vir uma sequência para esse filme, mesmo que a trama tenha sido concluída - e confesso que adoraria ver o que mais vai acontecer.

Início da sequência final: sangue e alta velocidade
A escolha acertada do elenco é um ponto-chave para o resultado bem sucedido, assim como a interessante fotografia que alterna os pontos de vista e traz o espectador para dentro das cenas de ação. Se pensarmos que este é apenas o segundo filme do diretor, é algo realmente admirável. Para quem está cansado da mesmice dos filmes de ação de Hollywood, A Vilã é uma alternativa imperdível.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Liga da Justiça


As expectativas estavam altas para esse Liga da Justiça (2017) - principalmente por causa do medo da repetição dos fiascos de crítica de Batman vs Superman : A origem da Justiça (2016) e Esquadrão Suicida (2016). De fato, eu mesma tinha minhas dúvidas do que eles poderiam fazer para consertar as burradas nos filmes de 2016, mas parece que as coisas começaram a se acertar com Mulher Maravilha (2017) e, ao que parece, continuam a trilhar um bom caminho - e prometem muito mais na sequência.

Seguindo rastros de um mal maior
Ainda no espírito de “juntar o time”, a trama principal precisou ser um pouco mais resumida: vemos o Batman (Ben Affleck) no rastro de um enigma: insetos voadores que farejam medo e um recorrente e misterioso desenho de 3 caixas que ele havia descoberto entre as anotações de Lex Luthor (Jesse Eisenberg) o levam a acreditar que uma ameaça maior está a caminho. A Mulher Maravilha (Gal Gadot) ainda está combatendo os vilões do dia-a-dia, mas logo a amazona receberá um aviso de algo mais urgente. As amazonas estão preocupadas com o comportamento estranho da Caixa Materna a que zelam, e logo elas terão que enfrentar um inimigo muito mais poderoso do que suas extraordinárias capacidades: O Lobo da Estepe (Ciáran Hinds, o Rei Pra Lá da Montanha de Game of Thrones).

Mulher Maravilha (Gadot) enfrenta o Lobo da Estepe (Hinds): luta entre deuses ainda é desequilibrada
Ambos herois entendem que o tempo está se esgotando e que é preciso recrutar mais ajuda – uma vez que o Superman (Henry Cavill) está morto, é necessário refazer uma antiga aliança entre os povos da Terra para enfrentar o disseminador do apocalipse. Mas como eles iriam exigir isso de um rei, de um jovem com problemas de socialização e um hibrido clandestino de humano e androide? Eles precisam contar a verdade, e é assim que eles vão atrás do Aquaman (Jason Momoa), o Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher). Decididos a impedir que o Lobo da Estepe tenha em suas mãos as três caixas, eles farão de tudo para evitar que a Terra seja destruída.

Liga reunida para a batalha final
Devo confessar que Liga da Justiça não chegou a superar minhas expectativas, mas o filme surpreende por ter melhorado muito o tom “supergrupo de herois” que eles tentaram em 2016 e que não foi bem o esperado. Era meio obvio que os mais conhecidos teriam mais espaço na trama, mas ainda assim foi empolgante assistir ao desenrolar da trama. Para um filme tão longo (e com produção tão conturbada), o resultado final acaba sendo satisfatório.

O futuro de Batman (Affleck) soa um pouco incerto, mas a Liga parece ter um bom futuro
Tem problemas? Alguns, mas é compreensível. Era preciso dar tempo para humanizar um pouco os heróis e fazê-los mais reconhecíveis para os não-fãs, e a receita mais usada para criar empatia com o público geralmente é o humor. Nesse caso, preciso louvar o desempenho do filme: apesar do personagem Flash ficar com boa parte do seu desempenho comprometida com o alívio cômico, ainda assim não é exagerado (e eu acredito que eles vão explorar mais o drama no filme solo dele), há bastante equilíbrio entre ação e humor. Mas a participação do reino de Atlântida ficou muito subdesenvolvida – era até desnecessária a participação de Mera (Amber Heard) – e apressada, sem realmente intrigar ao público. Cyborg talvez tenha sido o mais beneficiado dentre os “novatos” e dá para entender porquê.

Aquaman (Momoa): apesar de alguns bons momentos, mal disse a que veio
Houve bastante comoção entre fãs com algumas surpresas e cenas do longa, em especial à segunda cena pós-créditos (#ficaadica), e agora há uma grande expectativa para a sequência da Liga: menções ao maior vilão  da DC, Darkseid, e à Liga dos Lanternas Verdes fizeram a sala se tornar um estádio de futebol. Então, mesmo com muito o que se lapidar ainda, Liga de Justiça vale o ingresso, a pipoca e a espera.